quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O livro

Finalmente a Lombriga comprou o livro onde o meu conto aparece. Não digo que o meu conto seja digno de um Nobel mas é meu, algo que eu escrevi e do qual me orgulho.
Durante anos, a Lombriga foi a minha "editora". Ela detém grande parte do meu espólio literário e penso que, um dia, quando eu já não estiver consciente, vai vender os meus textos e ganhar uma fortuna - e neste pensamento não me incomoda nada a ideia de que ela me possa estar a burlar, incomoda-me a ideia de que, algum dia, alguém possa vir a interessar-se pelos meus escritos.
Sempre escrevi muito, por defeito, por feitio, por alegria, por tristeza. As palavras sempre foram "a minha coisa", assim como os livros que, imagine-se, são um conjunto enorme de palavras.
Quando o mundo parecia desabar, sentava-me na mesa do Pocinho e escrevia. As mágoas parecem menos dramáticas quando são transformadas em metáforas.
Nunca fui organizada nos meus escritos. Fui rabiscando folhas, deixando-as espalhadas pelo meu mundo e, talvez um dia, tudo se junte e forme uma grande Patrícia.

Enfim, a Lombriga comprou o meu livro e tenho que escrever uma dedicatória. Tudo isto seria fácil se não a conhecesse há anos. Se não tivesse já partilhado tantos momentos com ela. Se não lhe tivesse já dito tanta coisa como disse. Às vezes sinto que nem precisamos de palavras! E talvez, no nosso caso, as palavras estejam mesmo gastas, mas no sentido literal, já as usámos todas.
Talvez me limite a escrever "para a minha editora, aquela que sempre guardou os meus rascunhos e que sempre acreditou nos meus sonhos" ou "para a minha irmã mais nova, aquela que olha para mim como se eu fosse um modelo a seguir quando, na realidade, sou o oposto do que ela me vê".

Sempre fui a pequenina cá em casa. Quando o Zé chegou eu já era mais-ou-menos grande e agora com o meu pequenino somos mais "mães" que outra coisa. A Lombriga adoptei-a como "irmã mais nova". Ela cedeu-me esses direitos, ouviu os meus conselhos e sinto que, mesmo que estejamos a kms de distância, ela vai sempre vir se eu lhe telefonar. 

Por isso, cara editora, fica difícil escrever uma dedicatória quando, no nosso caso, as histórias já davam, elas próprias, um livro!



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